Do caos ao Cais
Artistas e estudiosos já se debruçaram sobre as águas do Capibaribe que, um dia, já foram limpas. Como diz Seu Nivan, um senhor de 67 anos que complementa sua aposentadoria com o que ganha alugando ou jogando suas redes de tarrafa no Cais: “Em 1958 se você jogasse uma moeda no rio a encontrava. Hoje, se jogar um caminhão não encontra!”
Transitar às margens do Capibaribe é comum a várias pessoas. Umas passam por lá diariamente para ir ao trabalho ou à escola, outros para fazer compras, visitar os pontos turísticos do Recife Antigo. Talvez haja também em comum entre essas pessoas uma percepção: a contradição. Por exemplo, a agitação da cidade contradiz com a tranquilidade das águas e a modernidade se contradiz com a arquitetura antiga. Mas não há maior contradição que esta: encontrar vida em meio a tanta degradação. O cheiro forte de peixe fresco contradiz com odor do lixo e do esgoto. Enquanto alguns cidadãos buscam distância do mal estar que aquele lugar provoca, outros estão ali dentro, nas águas sujas, na lama, buscando alimento, conquistando o produto a ser mais tarde comercializado. E para felicidade desses pescadores e vendedores, há consumidores.
O subtítulo deste especial multimídia é inspirado na obra de Vamireh Chacon - O Capibaribe e o Recife: história social e sentimental de um rio, de 1959. Chacon é um recifense nascido em 1º de fevereiro de 1934, bacharel e licenciado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Pernambuco. A obra, segundo ele, “constitui uma história social do Capibaribe e do Recife, encarando-os como uma unidade geográfica, histórica, econômica, sociológica, poética e sentimental”.
Mas foi de Chico Science a inspiração para o título. Parafraseando sua composição: “O sol queimou, queimou a lama do rio. Eu vi um chié andando devagar. E um aratu pra lá e pra cá. E um caranguejo andando pro sul. Saiu do mangue e virou gabiru (...) Da lama ao caos, do caos a lama. Um homem roubado nunca se engana.”
Do caos ao Cais mostra a vida de pescadores do rio Capibaribe que, como os peixes e crustáceos, tentam resistir à poluição causada pelo esgoto, o vinhoto e outros dejetos.
O modernista João Cabral de Melo Neto já despertava para isto: “O rio ora lembrava a língua mansa de um cão ora o ventre triste de um cão, ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão. Aquele rio jamais se abre aos peixes, ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes. Jamais se abre em peixes. Em silêncio se dá: em capas de terra negra, em botinas ou luvas de terra negra para o pé ou a mão que mergulha.” (Trechos do poema “O cão sem plumas”)
Com belas imagens, vídeos e textos, você verá aqui histórias de pessoas que vivem do rio ou que recorrem a ele num momento de desemprego.
Produção, textos e imagens: Élida Régis, Ewerson Luiz, Leonilson Filho e Lívia Cajueiro, alunos do 7º período de Jornalismo da Faculdade Maurício de Nassau. Especial multimídia produzido para a disciplina de Jornalismo Multimídia ministrada pelo professor Gustavo Belarmino. Agradecimento: Migus Comunicação
Recife; novembro de 2009.